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Educação na sociedade de castas

by Eduardo Estellita on dezembro 3, 2014

O grande educador Paulo Freire dizia que « Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor”.

Neste último mês, conheci e tenho participado de diversos debates com pessoas envolvidas diretamente com educação alternativa no Brasil. Descobrir como cada um destes projetos investe na formação de cidadãos tem sido uma experiência muito enriquecedora. Seus estudantes se tornam mais conscientes de si, de seus talentos, afinidades e do melhor impacto que podem causar na realidade que os rodeia.

Quando a conversa se aprofunda, alguns desses ativadores da educação confessam ter encontrado dificuldade para encontrar pais dispostos a inscreverem seus filhos. Para melhor compreender essa situação, tenho conversado com pais que têm seus filhos inscritos no ensino tradicional privado. O que os torna inquietos quanto ao ensino alternativo? Estão eles satisfeitos com o ensino tradicional e seu foco em preparação para o vestibular?

As críticas que tenho ouvido quanto ao ensino tradicional são as mesmas que já estamos acostumados a ouvir:

“O ensino tradicional está ultrapassado: o aprendizado no mundo de hoje não pode ocorrer vendo as matérias de forma isolada, durante períodos de 50 minutos separados por um sino.”

“Minha filha está constantemente estressada, estudando para o vestibular 7 dias por semana. Isso não me parece saudável!”

“Queria que meus filhos tivessem uma educação mais humanística e vissem que na vida não há só o vestibular… mas ao mesmo tempo quero dar para eles as melhores chances de ter sucesso na vida.”

Entender a tensão deste último testemunho é essencial para aprofundar o debate sobre ensino.

Antes de mais nada, a primeira preocupação de bons pais é garantir que a educação de seus filhos lhes proporcione a maior probabilidade de sucesso no futuro, que a educação não seja um obstáculo no caminho de seus sonhos.

O problema não é que eles estão convencidos que a educação tradicional é isenta de falhas. O problema é que eles desconhecem o que a educação alternativa traz como resultado. Ao oposto da parábola do barco de São Pedro, pais precisam mais do que fé para pular do barco; eles precisam ser convencidos que há um outro barco mais sólido.

Muitas escolas alternativas reconhecem essa necessidade dos pais e medem taxas de sucesso no vestibular para provar que seu programa faz mais do que “sentar numa roda e cantar Kumbaya”. Apesar do paradoxo de se utilizar as medidas do antigo paradigma para justificar sucesso, essa estratégia tem se mostrado eficaz porque encontra os pais onde eles estão.

Todos esses avanços são importantes, mas acredito que há um outro caminho a ser trilhado simultaneamente: um caminho que não enxerga a saída da escola como o fim do trajeto e que desafia também a estrutura macrossocial que sustentamos, um caminho que questiona como o sucesso é alcançado no Brasil.

Antes de continuar, vamos estabelecer uma definição comum para sucesso.

Sucesso é exercer uma profissão com a qual nos identificamos, que nos remunera de forma coerente e digna, nos permitindo obter reconhecimento social.

Há então 3 dimensões: identificação, remuneração e status.

Como veremos abaixo, no Brasil o maior inimigo do sucesso é a elasticidade de salários. Em toda a minha experiência morando em diversos países, eu nunca assisti uma elasticidade de preços e salários tão expressiva quanto a nossa. A dimensão psicológica do valor muitas vezes justifica quase a totalidade do preço, e este fenômeno é fortemente ligado à nossa forma de conceder status.

Algumas sociedades preferem conceder status baseando-se em resultados (como a Norte-Americana). A cultura brasileira (como a japonesa, indiana, russa e tantas outras) prefere basear-se em aspectos da identidade do indivíduo. O “fazer” é menos importante que o “ser”.

Por exemplo, no Rio de Janeiro, um professor de escola municipal recebe R$ 14,08 pela hora aula. Um professor de escola privada recebe R$ 60-80 pela mesma hora aula. Um consultor em universidade pode facilmente receber R$ 500 por hora. Infelizmente, essa elasticidade não é exclusividade da profissão de professor: semelhantes intervalos podem ser observados para agentes de saúde, policiais, consultores, etc.

São intervalos semelhantes, mas com médias bem diferentes. O salário inicial de um juiz estadual (excluindo benefícios) é em média R$ 22.000 por mês, enquanto um ministro do Supremo Tribunal ganha R$ 30.000 por mês, ou seja, 16 vezes mais que o professor da rede municipal.

Esses intervalos de salários cria uma hierarquia dentro e entre profissões, e resulta em uma sociedade de castas.

Nos resta então duas perguntas importantes:

O que vai definir se um indivíduo se encontra na seção inferior ou superior do intervalo?

Origem familiar, classe social, experiência profissional e sexo são fatores, mas educação vem em primeiro lugar. Grau de escolaridade e reputação da instituição de ensino pesam consideravelmente (e com a inflação dos diplomas este peso só aumentou).

Para muitos, educação universitária é um passaporte para a mobilidade social. Para chegar lá, a porta de entrada é o vestibular. Para aqueles cujas famílias se encontram no topo da pirâmide, o desafio é se diferenciar entrando para universidades conceituadas, em profissões cujo espectro de salário ofereça status e padrão de vida. Para chegar lá, é necessário passar em vestibulares concorridos, com relações candidato-vaga maiores a cada ano. Em ambos os casos, o vestibular ainda permanece um fator determinante de duas dimensões do sucesso: remuneração e status.

 

Quais as consequências dessa elasticidade de salários?

A forma como concedemos status cria uma profecia autorealizável. Por receberem menos, professores da rede pública deverão aumentar consideravelmente seu número de aulas para prover suas necessidades básicas. A consequência na maioria dos casos é que, por falta de tempo de preparação, as aulas se tornam ruins, fazendo com que os alunos se preparem mal para o vestibular e se mantenham na base da pirâmide. Professores que recebem melhor têm mais tempo para se preparar e dar aulas de qualidade, elevando o status de seus alunos e de si mesmo.

Além disso, a consequência principal da elasticidade é que a terceira dimensão do sucesso (identificação) fica relegada ao segundo plano. 8 em cada 10 profissionais está desengajado no seu trabalho. Pessoas baseando escolhas profissionais somente na remuneração e no reconhecimento que eles proporcionam dificilmente terão um real impacto, pois estão mais preocupadas com o próximo emprego (e seu melhor salário) do que com o atual. Vemos então a proliferação da indústria dos concursos públicos e suas promessas de remuneração aquém de qualquer identificação à profissão. Vemos o surgimento de uma sociedade que valoriza o “ter” acima do “ser”.

 

Muito além das discussões práticas que separam uma corrente pedagógica de outra, é preciso liberar os estudantes das armadilhas e tentações do sistema que os aguarda na saída da escola, para que eles mesmos se tornem motores da construção de novas realidades.

Para isso, é essencial desenvolver a autoconsciência dos estudantes sobre seus talentos, afinidades e propósito de vida, além de liberar o seu potencial empático. É preciso que eles experimentem o contato com o seu próprio estilo de liderança: primeiro uma liderança pessoal, depois uma liderança que causa impacto no coletivo. “Uma vez expandida, a mente nunca retorna ao seu tamanho original.”

Com LeadNow, por 2 dias, criamos em escolas, universidades, instituições e empresas este espaço de experiência da liderança. Não diferenciamos ensino público de privado, escolas tradicionais de alternativas, segundo de terceiro setor, porque acreditamos que todos os percursos educacionais devem colaborar juntos para redesenhar o mercado de trabalho brasileiro.

A nova ordem mundial está quebrando o paradigma das profissões nobres. Vemos mais e mais líderes que conectam pessoas e provocam mudança significativa porque descobriram seu propósito de vida, independentemente do setor em que trabalham. O mundo em rede fará com que em breve eles se tornem a maioria.

Seus filhos estarão prontos?

 

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