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Empreendedorismo no século 21

by Eduardo Estellita on novembro 4, 2017

Conheça Rachel Lowe:

Rachel tinha uma ambição e um desejo: lançar um novo jogo de tabuleiro que competiria contra “Banco Imobiliário”, campeão de vendas por 7 décadas. Ela pesquisou o mercado por vários meses antes de fazer o seu pitch para os investidores-anjo do programa Dragon’s Den (versão inglesa do Shark Tank). O saldo de sua apresentação foi um ressoante “Não”, já que sua inexperiência (ela tinha 27 anos na época) e ausência de planejamento a longo prazo atrapalharam seus planos.

O pitch de Rachel vai à raiz do que significa ser empreendedor no século 21.

Em um mundo previsível, onde a “estabilidade leva ao crescimento”, a forma de encarar novos empreendimentos era bastante direta:

1)    Você pesquisa o mercado (preferencialmente utilizando as 5 forças de Porter) e prevê dois ou três cenários para o futuro (com baixa margem de erro)

2)     Desenha diversas estratégias e escolhe a que otimiza seus resultados

3)      Obtem recursos, principalmente após apresentar seu plano de 3 anos para investidores

4)      Trabalha duro para entregar o que prometeu

Nesse mundo, o único resultado possível seria alcançar seus objetivos.

O problema com esta abordagem do século 20 é que muito pouco é previsível ou certo no século 21. Somente o primeiro exercício das 5 forças de Porter torna-se um pesadelo perante a complexidade e interconectividade da rede de stakeholders.

Leonard Schlesinger e Charles Kiefer encontram-se com “empreendedores em série” para compreender como empreender no mundo VUCA dos dias de hoje (Volátil, Incerto, Complexo e Ambiguo). O resultado desta pesquisa é um livro bastante interessante chamado “Just Start”, que desenha os princípios do que eles chamaram de “Creaction” (misto de Criatividade e Ação).

1)    Comece com um desejo. Você não precisa estar apaixonado pelo seu negócio desde o princípio, tenha apenas desejo suficiente para dar o pontapé inicial.

2)   Aja rapidamente tomando pequenos passos inteligentes (isto é, dentro dos limites do quanto você pode investir), com os meios a mão. Um passo sadio seria de envolver outras pessoas na sua ideia, para multiplicar recursos e diluir os riscos. A pergunta a se fazer é “Quanto eu estaria disposto a investir (em tempo, dinheiro, energia) para descobrir onde esse projeto me leva?” em vez de “Quanto eu vou ganhar daqui a 3 anos quando o meu negócio estiver estabelecido?”

3)      Reflita e construa a partir das lições aprendidas no passo anterior. Verificar os resultados no mundo real é um presente e tanto resultados positivos quanto negativos nos dão a oportunidade de corrigir o tiro para o próximo passo.

4)      Repita até você alcançar sucesso, exceder suas perdas aceitáveis, provar para si mesmo que o negócio não pode ser feito ou mudar de ideia.

Retornando à Rachel, “Creaction” foi exatamente a abordagem dela. Ela começou com seu desejo. Após isso, tentou recrutar outros para recolher recursos (dinheiro e experiência) focando sua atenção no próximo passo (o lançamento na loja de brinquedos Hamley’s). Ela não estava tão preocupada com o planejamento ao longo prazo do seu negócio, uma vez que compreendia que tentar tornar-se o primeiro grande competidor de uma marca estabelecida era um cenário imprevisível. Ela definiu sua perda aceitável e adaptou seu curso com o que aprendeu no programa e no lançamento do jogo.

O produto de Rachel foi um sucesso estrondoso e já no primeiro ano retirou “Banco Imobiliário” do topo da lista dos mais vendidos. Desde então, ela relançou o jogo em 26 outras capitais do mundo e tornou-se parceira da Disney e da Warner Brothers (com uma versão do Harry Potter).

A estrada não foi só de sucessos e durante a crise de 2008 sua empresa faliu, porém a cada passo ela construía em cima do que havia aprendido. Onze anos depois, Rachel ganhou a experiência de uma “empreendedora em série”. Ela sabe o que funciona e o que gosta de fazer. Fez um pé de meia e fez muitas parcerias de sucesso observando o contexto e as oportunidades do momento. Se tivesse adotado o modelo preditivo que se ensina nas escolas de negócios, sua ambição talvez nunca tivesse se concretizado.

O motivo pelo qual compartilho sua história não é para dizer para você o quanto a Geração Y vem escolhido empreendedorismo como uma alternativa ao mercado de trabalho tradicional ou explicar o quanto o desemprego contribuiu para o crescimento do empreendedorismo (durante a crise de 2012, 1 a cada 3 jovens na Europa estava desempregado ou subempregado). Ambos são verdade e você já sabe disso!

Compartilhar histórias das muitas Rachels deste novo mundo é essencial para atravessarmos juntos as diversas crises em nossa sociedade.

O primeiro e mais importante desafio para os empreendedores do século 21 é aceitar o desconforto da incerteza. Aqueles que se permitirem abandonar o controle, desenvolverem flexibilidade e acolherem as oportunidades do acaso serão os líderes globais que tanto precisamos.

O que você está fazendo para abandonar o controle?

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Texto escrito originalmente em inglês para o site genyusatwork.com em 18/10/2012

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