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Pode um homem ser feminista?

by Eduardo Estellita on novembro 30, 2017

Quando fundei a genYus @work, resolvi propositalmente focar minha atuação em segmentos de diversidade dos quais me sentia, de uma forma ou de outra, representante da minoria e, portanto, mais “legitimado” para assumir o lugar da fala. Por essa razão, minhas primeiras pesquisas em diversidade foram sobre gerações (a começar pelos jovens) e interculturalidade (a começar pela experiência do imigrante).

Conforme me aprofundava no sujeito, ficou claro que a desigualdade (seja ela de gênero, origem, classe social, cor ou orientação sexual) não é um problema cuja solução é de responsabilidade exclusiva das minorias. Toda desigualdade e opressão social impacta negativamente a todos (de formas e intensidades diferentes, porém igualmente válidas), causando feridas profundas no funcionamento de toda a sociedade.

 

As duas faces do lugar da fala

Inspirado pelo movimento feminista dos anos 80, o conceito de lugar da fala foi incorporado ao debate político atual. O objetivo é fazer com que classes poderosas parassem de funcionar como únicas mediadoras de movimentos em prol das minorias, convidando representantes destas minorias para exprimirem-se sobre suas experiências únicas de discriminação e injustiça social. Esta inclusão visa esclarecer que uma pessoa não pertencente a uma minoria não pode compreender por completo muitas das experiências vividas por esta minoria. Relacionado ao conceito de lugar da fala está a ideia de que minorias devem ser protagonistas na busca por igualdade de sua classe.

Infelizmente, este importante conceito tem sido deformado e utilizado de forma dogmática em alguns fóruns mais radicais para promover a exclusão e desqualificação do debate de qualquer voz que não pertença à minoria (o que os gregos antigos chamavam de argumento ad hominem). Lugar da fala não quer dizer que somente negros, mulheres, gays ou trans têm direito à fala sobre questões como racismo, machismo e homofobia, somente que cada pessoa deve estar consciente da posição (de poder e privilégio) na qual se encontra ao abordar estes assuntos, evitando assumir que sua experiência é igual a dos outros.

Pessoas que não pertencem à minoria não somente devem participar do debate como têm a obrigação moral de fazê-lo, para conscientizarem-se de seus privilégios, da eventual violência presente em sua linguagem, dos obstáculos enfrentados pelo outro e contribuírem com sua perspectiva pessoal dos efeitos nefastos da desigualdade. Viver em sociedade implica colocar na balança nossos interesses pessoais e coletivos e, às vezes, escolher abrir mão de alguns benefícios pessoais em prol do coletivo.

 

O protagonismo da minoria

Falar sobre injustiças sociais, dores e angústias do passado e do presente em um ambiente seguro é importantíssimo para o processo de cura das injustiças sofridas pela minoria. Conectar-se à raiva que estas injustiças provocam também é. Há um aspecto reparador e catártico de se encontrar em meio a pessoas que vivenciaram experiências similares e podem oferecer uma escuta que as reconhece e qualifica (sem sofrer com o ofensivo contraargumento do “mimimi” e “vitimismo”) Estas são etapas legítimas e essenciais no processo de empoderamento das minorias.

Por outro lado, para obterem sucesso com seus projetos sociais, minorias precisam construir pontes com outros segmentos fora do seu grupo, por mais penoso que este processo possa ser. A exclusão do outro do diálogo sobre justiça social aumenta a tensão, em vez de diminuí-la, e minorias que se fecham dentro de si incorrem frequentemente em groupthink (tendência a chegar ao consenso sem avaliar criticamente as ideias), comportamento de manada (como linchamentos públicos) e visão maniqueísta da realidade (nós x eles, oprimidos x opressores).

A meu ver, protagonismo que gera mudanças faz oposto disso. Abrir o diálogo com o segmento que detém o poder não somente é uma estratégica benéfica como é inteligente. Como muitas executivas colocam, “só é possível mudar as regras do jogo sentando-se à mesa”.

Educar um grupo privilegiado de seus vieses e violência estrutural no agir e falar, a fim de angariar defensores da causa, me parece mais eficiente que o confronto aberto a uma massa amorfa de opressores. Essa tem sido uma estratégia praticada de forma recorrente pela comunidade transgênero, como exemplificado no vídeo de Jackson Bird.

 

O perigo da história única

Acredito profundamente no que a feminista Chimamanda Adichie chama de “o perigo da história única”. Quando nos permitimos ir ao encontro da história do outro, enxergamos toda a sua riqueza (com medos, desejos e sonhos), transcendendo rótulos de classe.

Quando escolhemos a abertura no lugar do medo, encontramos a alteridade, ou seja, a consciência de que estamos todos interconectados, existindo uns a partir do contraste das nossas experiências com as do outro.

Quando aceitamos a diferença com tal, em vez de melhor ou pior, descobrimos um mundo de novas possibilidades e inovações para o coletivo.

Estas mudanças de posicionamento são o motor da justiça social e da reparação. Se desejamos construir um senso de coletividade em nossa fragmentada, individualizada sociedade, precisamos de mais conversas que acolham todas as vozes.
Pode um homem ser feminista?

Em contraponto ao machismo (a crença em uma suposta superioridade do homem sobre a mulher), o feminismo é um movimento que acredita na igualdade de gêneros e se organiza para articulá-la na sociedade.

Rígidos papeis de gênero não somente aprisionam mulheres em posições injustas e desconfortáveis, mas também o fazem com homens, como apresentado no documentário “A máscara em que você vive”. Se este já deveria ser um argumento para que homens se identifiquem à causa feminista, soma-se a ele o dever moral de contribuir na criação de uma sociedade mais justa e segura para todos.

Ao longo dos últimos meses tenho me dedicado a pesquisa e apoiado lutas identitárias, mesmo onde minha condição social representa a classe privilegiada (notadamente, a do homem branco). Me parece urgente ampliar minha atuação para outros campos da diversidade, campos essenciais para o progresso social no Brasil. Não me identifico com todas as vozes da minha classe e acredito que não sou o único.Como muitos em minha situação, gostaria de contribuir, mas nem sempre é fácil saber como.

Foram muitas conversas, vídeos, palestras e livros para descobrir o papel com o qual me sinto mais confortável e articulá-lo de forma concreta. É um trabalho constante de escuta e questionamento sobre as percepções que a minha intervenção reflete para aqueles que fazem parte destas minorias.

Dando continuidade ao trabalho que a genYus vem realizado nos últimos 5 anos, quero em 2018 contribuir para a construção de ambientes de trabalho mais integrados e seguros, onde colaboradores dos mais diversos segmentos da sociedade sintam-se não somente tolerados, mas genuinamente motivados para contribuir com sua perspectiva e identidade únicas. Acredito no poder do ambiente de trabalho integrado para empoderar minorias e propagar aceitação na sociedade.

Se você é responsável por Diversidade e Inclusão (D&I), quais os desafios que enfrenta para implementar políticas inclusivas? Se você se identifica com alguma minoria, adoraria ouvir sobre as políticas de Diversidade & Inclusão (D&I) em sua empresa e sobre as pequenas mudanças que fariam com que se sentisse mais integradx, respeitadx e engajadx no trabalho.

Vamos conversar?

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