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Sobre gêneros e papeis

by Eduardo Estellita on fevereiro 6, 2018

Em 2005, quando começava minha carreira profissional no departamento de compras da L’Oréal, lembro-me de uma semana particularmente intensa.

Estávamos preparando uma apresentação para aprovação dos projetos de redução de custos do ano seguinte para o VP Global de Marketing. O nervosismo de todos não somente dava-se pelo fato de ser uma apresentação para uma das principais lideranças da empresa, Youcef Nabi, mas também por sua reputação como alguém demasiadamente ríspido e exigente.

Sue Youcef Nabi foi a primeira pessoa trans que conheci. Contrariando expectativas iniciais, sentou-se do outro lado da mesa uma mulher elegante, extremamente inteligente, carismática e gentil, no alto dos seus 30 anos. Cada projeto era analisado de forma criteriosa e julgado decisivamente (especialmente na linha de maquiagem), com um profundo respeito pela marca e pelo consumidor. Nos próximos anos, Sue foi presidente da L’Oréal Paris e da Lancôme, até deixar a empresa em 2013, para oferecer a universitários um curso sobre gentileza, um valor que, em suas próprias palavras é “frequentemente esquecido em um mundo que corre freneticamente atrás de dinheiro e poder”. Alguns anos depois, conheci um homem trans no clube de badminton e ele era um exemplo de otimismo e energia contagiante, aquele tipo de pessoa que comemorava cada ponto e se jogava no chão para salvar uma jogada.

Vi dezenas de vídeos e artigos de pessoas trans ao longo dos anos (como a pesquisadora Helena Vieira, o músico Liniker ou a diretora da KPMG, Danielle Torres) e me pergunto se não existiria um padrão em seus exemplos de abertura, paciência e diálogo, mesmo diante de tamanha incompreensão, ignorância e preconceito na sociedade.

O fato é que, ao contrário de outros grupos minorizados na sociedade (como negros, gays ou mulheres), a comunidade transgênero é bastante pequena (menos de 1% da população). A esta baixa expressividade soma-se a exclusão social e no mercado de trabalho. No Brasil, 90% deles recorrem à prostituição como única opção de sobrevivência, vivendo em média até os 35 anos (menos de metade da média nacional).

Para uma pessoa cisgênero (do prefixo grego mesmo lado, alguém que se identifica com o sexo designado no nascimento), é possível viver uma vida inteira (ou, no meu caso, 20 anos) sem nunca ter encontrado pessoalmente uma única pessoa transgênero, especialmente quando tantos se encontram às margens da sociedade.

Para sobreviver neste contexto de invisibilidade e exclusão, militantes trans se vêem com frequência obrigados a abrir mão de parte de sua privacidade e dignidade para educar o outro sobre seu direito de existir e esclarecer concepções erradas acerca de identidade de gênero e orientação sexual (conceitos frequentemente tidos como equivalentes). A representatividade limitada na sociedade traz um peso maior à responsabilidade de cada um de seus membros sobre a percepção que o resto da sociedade forma sobre eles, da mesma forma que teria um imigrante em terras estrangeiras.

Por essa razão, momentos como 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans, são muito importantes.

São uma oportunidade para nos interessarmos um pouco mais sobre suas realidades, trajetórias e desafios pessoais.

São uma oportunidade para abandonarmos os estereótipos que criamos em nossas cabeças e darmos espaço a uma visão mais humana das pessoas trans.

São uma oportunidade para reconhecermos que não é mais aceitável nos mantermos ignorantes e cegos à forma desprezível (evidenciada pelas estatísticas alarmantes) com a qual tratamos nossos irmãos e compatriotas.

São uma oportunidade para reconhecermos seu direito e capacidade para participar da sociedade de forma plena (como Sue, Helena, Liniker e Danielle), sem precisar esconder sua característica mais primordial na vida social, sua identidade de gênero.

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Antes mesmo de abandonarmos os ventres de nossas mães, nosso sexo já determinava uma série de expectativas e comportamentos impostos pela sociedade. Por ser o primeiro papel que se assume na vida, o gênero talvez seja o mais importante de todos.

Papeis de gênero impõem como se vestir, comportar-se, interagir com pessoas do mesmo e do outro sexo, que sentimentos exprimir ou reprimir (como raiva e tristeza), que funções assumir na família (cuidar do lar ou prover financeiramente), que interesses desenvolver, que profissões buscar, etc.

Grande parte destes papeis de gênero são arbitrários ou reprodutores de uma estrutura de poder e dominação, que agride tanto opressores quanto oprimidos. São eles os principais responsáveis pela reprodução do machismo, da misoginia e da homofobia e, conforme a sociedade avança para novas configurações familiares, surgem novos questionamentos sobre sua relevância.

Pessoas trans se encontram presas entre expectativas sociais de gênero determinadas pela anatomia e sua real identidade (como se reconhecem).

Nossa sociedade as rejeita porque elas representam o caso extremo de uma realidade que todos vivenciamos: o desconforto com algum papel de gênero. Elas fazem o que muitos de nós têm tanto medo de fazer, libertar-se.

Se, ao invés de renega-las, realmente as ouvíssemos, quem sabe encontraríamos soluções para a crise de conexão que tanto destrói nossas comunidades.

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Compartilho abaixo uma imagem que ajuda a esclarecer (e diferenciar) alguns conceitos…

Generos, sexo